Sono da Verdade
O trabalho efectuado pelo hipnotera-peuta Alberto Lopes na SIC, abriu a mente dos portugueses para o mara-vilhoso potencial da hipnose e regres-são clínica como técnica terapêutica.
Crónica: “CARMA” uma acção que gera uma reacção

Todos nós provavelmente já ouvimos falar do Carma. No senso comum ouvimos coisas do género: “Neste momento estou a sofrer o meu Carma”; “Tens um Carma muito pesado”; “É o castigo do teu Carma, tens de aguentar…”; “Não podes reclamar está a pagar o teu Carma”
Será mesmo assim?
Acredita, na realidade, que estamos na vida para ser castigados e/ou para pagar uma dívida Cármica?.. Peço-lhe perdão, mas não creio ser essa a função do Carma. Mas afinal qual é a função do Carma?, pergunta-me você! Carma é uma antiga palavra em Sânscrito que etimologicamente significa: “uma acção que gera uma reacção”, isto é, “causa e efeito”. O homem, pelas suas escolhas, é o criador do seu próprio destino. O que ele for capaz de projectar ao longo da sua caminhada é o que irá encontrar na sua senda.
Dizem alguns dos escritos de filosofias orientais que se o homem rejeitar ou marginalizar uma determinada raça ou sociedade é o que irá atrair para si na próxima reencarnação. As representações erradas que ele fizer das suas experiências de vida é o que irá encontrar na sua jornada terrena. Se valorizar o amor, atrairá mais amor e será abençoado pelos seus poderosos efeitos, mas se ele passa a vida a prestar atenção ao medo e a rever-se na revolta, será consumido por eles. É a forma que a Alma encontrou de encarar os acontecimentos e experiências do passado como padrões. E, todavia, cada padrão compreendido é ultrapassado e a Alma regozija de alegria e evolui exponencialmente. Tornou-se claramente maior na sua evolução espiritual. Na realidade, podemos até ignorar que o Carma não existe, mas ele continua a fazer os seus efeitos e a condicionar a sua vida, a minha vida, a vida de todos nós. E, no entanto, eu creio que a principal função do Carma é proporcionarmos as experiências que nos propusemos ultrapassar nas existências passadas. Na realidade, sempre atraímos para nós aquilo que mais precisamos para evoluir na senda espiritual. Existem duas leis básicas no Universo: causa/efeito (Carma) e livre-arbítrio (Dharma).
Sabemos agora o que é o Carma, mas e o que é o Dharma?.. Dharma é o nosso desígnio espiritual em direcção à imortalidade. Ou seja, é uma espécie de mapa onde nos podemos orientar para evoluirmos mais rápido em direcção à Casa Cósmica. Mas sempre podemos escolher vários caminhos (livre-arbítrio) para lá chegar. Pois mais importante que a velocidade na nossa caminhada, o mais importante está em fazer os movimentos em direcção à fonte espiritual de onde todos provimos. Somos responsáveis pelo planeta, pelos outros, pela sociedade e por nós mesmos. Assim, a função do Dharma para a Alma é um desejo intrínseco de ela ser melhor. De se projectar no amor e engrandecer-se com as suas experiências arrebatadoras. De evoluir e crescer em reciprocidade com Almas Companheiras. De ser maior do que os seus medos. Maior do que a sua revolta. Maior do que a sua solidão. De ser uma verdadeiro Ser de Luz. Não é isso mesmo que estamos todos interessados, nesta maravilhosa comunidade espiritual?.. Gostaria de contar-lhe um acontecimento que elucida muito bem o que acabei de dizer-lhe.
Recordo-me que, há uns tempos atrás, trabalhei com um jovem de 19 anos que tinha tentado por quatro vezes o suicídio. Para além de ser muito introvertido, não lidava muito bem com o sentimento de perda dos seres que amava. E a sua última tentativa de por cobro à sua vida tinha ocorrido 15 dias antes. Devido ao falecimento do seu adorado cachorro. Inesperadamente, tudo aconteceu de uma forma dramática num acidente de automóvel. Na verdade, era um jovem com muita baixa auto-estima e, provavelmente, o seu adorado cão era o seu maior amigo e companheiro na solidão em que se tornou a sua vida. Recorreu à Terapia de Vidas Passadas como derradeira oportunidade de encontrar uma razão válida para continuar a viver. Para seu espanto, num retorno a vidas passadas, verificou que também se tinha suicidado numa vida anterior.
Em regressão, viu-se como um jovem monge, na imponente e misteriosa Índia antiga, e não conseguiu salvar o seu mestre, que morrera de uma epidemia que assolava a região onde viviam. Não suportando a dor de ter ficado só, e sentindo-se doloroso por não salvar com os seus fabulosos conhecimentos o seu querido e amado mestre, suicidou-se com um preparado de chá de Cicuta – um poderosíssimo e mortal veneno. Mortificado pela dor, descreveu-me em transe o momento da sua morte e como, após ter ingerido veneno extraído da própria planta Cicuta, começou a ficar frio e enrijecido, até que o poderoso veneno chegou ao seu coração e sobreveio a morte num estertor.
Quando finalmente estava a flutuar sobre o seu corpo contorcido, veio ao seu encontro o seu mestre envolto num halo de luz. E o que se passou de seguida deixou-nos estupefactos. Alertou para o erro de se ter suicidado. Assegurou-lhe que a responsabilidade pela sua morte não era dele, mas um desígnio da própria Alma do seu mestre. Avisou que num futuro iria repetir o mesmo padrão cármico, pois aquela existência passada na Índia, em virtude de ter sido interrompida, não foi proveitosa o suficiente para a sua total e completa evolução. A Alma é sábia e busca sempre a iluminação através das experiências interpretadas e ultrapassadas, disse-lhe o mestre.- O suicídio que cometeste, interrompeu a tua evolução como ser espiritual-, argumentou compassivamente o seu mestre na luz.
De facto, aquela sessão ocorreu de uma forma que nem eu conseguia prever. Mas há muito que aprendi que a Alma tem a sua agenda própria e que na maioria das vezes somos apenas facilitadores num processo de cura notavelmente espiritual. No seu processo de regressão ao passado, aquele paciente foi capaz de identificar o padrão recorrente e compreendeu o primordial objectivo da sua vida actual: - Alertar as pessoas para a dádiva que é a vida – disse-me ele, ao acordar da hipnose no final da regressão. Efectivamente, ao despertar do seu transe estava muito feliz, com uma convicção inabalável de ter encontrado o seu rumo na vida. Eu, obviamente, também estava feliz pela evolução rápida do seu caso, mas o inesperado aconteceu. Na semana seguinte, sem ninguém estar à espera, morreu um seu familiar muito próximo. Como o paciente tinha dificuldades com o sentimento de perda, e esse dramático acontecimento aconteceu logo a seguir à nossa regressão, fiquei naturalmente preocupado: - Como irá ele reagir à morte do ente querido?, pensei. Recebi-o três dias depois.
Gostaria de partilhar convosco uma das maiores lições que fui capaz de aprender nesta notável terapia de ressonância espiritual. Eis então as palavras dele quando se sentou à minha frente, para uma nova sessão de regressão:
“-Esta semana a morte passou perto de mim. Veio buscar um primo, um pouco mais velho que eu. Sabe, Dr. Alberto, curiosamente nunca tive medo da morte, aliás confesso que tinha vontade de morrer, tal a falta de sentido que sentia para a minha vida. Mas hoje sinto um respeito profundo por ela. Talvez até um pouco de medo. Medo por pensar que não há amanhã. E se hoje morresse, morreria sem transmitir tudo o que me foi revelado na minha regressão. Medo de não ter tempo para fazer emergir o amor espontâneo que cada ser humano possui, no mais íntimo do seu ser. Esta semana, fui capaz de ajudar a minha família, na dor da perda, no seu luto, como jamais poderia supor. E sinto-me grato à vida por isso. Sinto-me tão feliz e preenchido de amor por poder ajudar os outros… sinto que descobri a minha missão, e estou grato à Terapia de Vidas Passadas esta suprema felicidade”-, dizia-me naquele momento, lavado em lágrimas e tremendamente comovido de felicidade pela oportunidade maravilhosa de ajudar ao próximo. -“Faz muito sentido a razão da minha existência, e o padrão de vida que atraí para mim. Sei agora que a vida é uma dádiva para apreciarmos em toda a plenitude.” -, Acabou por concluir claramente emocionado. Finalmente, ele tinha percebido que todos somos capazes de distinguir horizontes longínquos, se escutarmos novamente a voz sábia da nossa Alma – geralmente agrilhoada em padrões cármicos e situações mal resolvidas do passado.
Tenho de vos confessar, da minha parte, pouco fiz para operar esta tremenda mudança. Sei, sem dúvida, que todo o processo de mudança estava no seu interior. Bastava apenas alguém reconectar com o seu Carma mal resolvido do passado para ele finalmente exercer o seu Dharma. E isso também podia ter acontecido naturalmente numa oração, meditação, numa experiência transcendente e reveladora da sua natureza imortal. Eu apenas fiz o menor: abrir a porta daquele vasto reservatório de recursos e saberes ancestrais, através de uma técnica antiga e de matriz notavelmente espiritual. Sim, porque ao contrário do que possa pensar, não estamos a falar de um processo terapêutico novo. A hipnose de regressão é tão antiga como a própria humanidade. E é esta a base com que faço qualquer terapia de regressão: somos todos auto-curáveis. Sabendo à partida que como seres físicos somos transitórios, mas como seres espirituais somos eternos. E penso que é importante descobrir na caminhada pela vida que a nossa eternidade perde-se nas brumas dos tempos.
Creio que estamos na vida não apenas para saber a verdade, mas, sobretudo, para experienciar a verdade. E saibamos que agora é possível fazê-lo através de uma séria e responsável sessão de regressão, aos tesouros notavelmente guardados na nossa Alma. Mas o caminho só pode ser para o interior e menos exterior, não concorda comigo? Todos somos imortais, todos somos Seres de Luz. Toda a gente é um ser luminoso e muito belo que anseia descobrir a sua ancestralidade e brilhar. Não há ninguém que não possua essa essência do amor a dormitar no seu interior. Existem apenas pessoas que ainda não descobriram essa parte da sua divindade imortal. Fazer uma Terapia de Vidas Passadas nada mais é do que descobrir quem realmente somos em essência. E, evidentemente, somos seres de amor puro, pleno, absoluto. E estou crente que todos fomos amassados daquela substância chamada amor pelas mãos de um Deus amoroso, compreensivo e generoso. Quando todos formos capazes de descobrir essa divina verdade deixaremos de ter medo do julgamento de Deus, e intuimos o profundo amor que nutre por nós.
Numa vida repleta de espiritualidade não há obrigações, nem mesmo posse, só oportunidades. A oportunidade de viver a vida de acordo com o que a sua Alma planeou. Viver exactamente aquela vida que realmente o poderá fazer feliz. Ter a oportunidade de descobrir que possui uma essência imortal e que faz parte da sua natureza brilhar. Isto interessa-nos a todos, não é? Lamentavelmente, todos conhecemos algumas pessoas que parecem ter medo de arriscar. Não trocam o certo pelo incerto. Querem que a vida mude, mas elas próprias se recusam a mudar. Não exercem o seu livre-arbítrio (Dhrama). Parecem querer sempre garantias para tudo na vida. Mas se querem garantias para a vida, então não querem a própria vida. Querem uma novela escrita e orientada pelos outros. Às vezes penso: Mas que espécie de vida é essa! Isso não é viver, é sobreviver.
Aceitemos, a vida pela sua natureza, não tem garantias, mas inúmeras oportunidades de escolhas. Por isso, ela é o nosso maior desafio. E possui infinitas possibilidades de realização. Muitos acreditamos que há-de chegar a altura, na evolução de todas as Almas, em que a principal preocupação não é a sobrevivência do corpo físico, mas sim o crescimento do espírito. Não é a obtenção exponencial dos bens materiais que irá trazer felicidade na nossa vida, mas a realização do EU espiritual que somos em essência. Cada um de nós é aquilo que pensa que é. Esta maravilhosa terapia ensinou-me que atraímos para nós aquilo que mais precisamos para evoluirmos. Nenhuma experiência está mal ou boa, as lições que extraímos de cada uma delas é que irá fazer a diferença. Lembre-se: estamos na vida não apenas para saber a verdade, mas para apreciar a verdade. Eu imagino que lindas e fabulosas verdades também você transporta no seu interior, já pensou alguma vez em conhecê-las?.. Ter coragem de conhecer a sua ancestralidade é admitir a sua natureza imortal presente num corpo novo. Mas no seu interior é a mesma Alma: seguramente mais antiga, certamente mais sábia, e naturalmente mais evoluida.
Quando estiver cansada/o de uma vida vazia e sem sentido; quando o futuro não lhe der grandes motivos para sorrir; quando sentir que a sua existência é vivida de afectos parcos e transitórios; quando olhar para trás o que fez ou deixou de fazer deixam-na/o frustrada/o, questione se não é chegada a hora de conhecer e resgatar a verdade sobre tão pesada “dívida Cármica”.
Há muito tempo que aprendi que não é importante passar pelo mesmo Carma, num padrão repetitivo de sofrimento desnecessário, mas, sim, importa ultrapassar o Carma para cumprir o Dharma da nossa Alma… Eu creio que o nosso Carma é para ser resolvido e jamais sofrido…
(Texto baseado no meu recente livro: O Sentido da Vida. Editora: Vogais & Companhia, 2009)
Um abraço de Luz bem forte e apertado

Alberto Lopes



