Sono da Verdade
O trabalho efectuado pelo hipnotera-peuta Alberto Lopes na SIC, abriu a mente dos portugueses para o mara-vilhoso potencial da hipnose e regres-são clínica como técnica terapêutica.
Crónica: Resgate Espiritual
O insondável mistério da morte gera nas sociedades humanas, e particularmente nas pessoas, distintos modos de lidar com os sentimentos de perda e ausência Provavelmente não existe acontecimento que produza maior receio e angústia do que a iminência da morte e, todavia, aparentemente seja a única certeza que nos habita. Praticamente todos temos receio da morte e, justamente, aspiramos à imortalidade ou, pelo menos, à intemporalidade. Na nossa sociedade de cariz judaico-cristã ainda é tabu abordar o mistério da nossa finitude biológica. Pergunto: mas porque algo que é inevitável, quer dizer, é algo pelo qual todos iremos passar, continua ainda envolto num absoluto mistério?
Convenhamos, para muitos a morte aparentemente é um segredo. Falam-nos que ninguém a conhece. Apenas a percebemos através da morte dos outros. E, no entanto, devemos reaprender a viver com os que partiram, porque afinal eles não morrem. E é isso que constato em cada regressão. Eles estão bem e querem dizer-nos que agradecem tudo o que fizemos por eles. E que nos amam muito. E que a sua etapa nesta existência chegou ao fim, mas o amor por nós é incondicional. E querem que saibamos isso, querem que o nosso coração se encha de amor, pois num futuro novamente estarão connosco. Talvez com outra roupagem, mas a Alma é a mesma. E esse reencontro será a coisa mais maravilhosa que poderíamos desejar. É possivle que com a morte nasce a verdadeira vida de um ser intemporal.
Apraz-me contar-lhe uma história verídica e que me tocou especialmente. Não só como terapeuta de regressão, mas sobretudo como curador de Almas. Como deve compreender, a única coisa alterada nesta história são os nomes, para preservar a identidade dos intervenientes.
Há algum tempo atrás, fui convidado para ir jantar a casa de um aluno e amigo que frequentava um dos meus cursos de Terapia de Vidas Passadas. Um familiar próximo estava a sofrer profundamente com a morte da esposa e do seu querido filho, falecido com apenas oito anos de idade. A morte dos dois ocorrera dois anos antes, num acidente de viação, em frente à sua casa. A morte viera de modo repentino e completamente inesperado, e na sua origem esteve um indivíduo que, completamente embriagado, embateu violentamente no veículo em que a esposa e o filho regressavam da escola. José, pai e marido, perdera as pessoas que mais amava e, desde então, desistira de viver. A revolta contra o mundo consumia-lhe a Alma, amargurado pela injustiça da vida, refugiou-se no álcool. Restava-lhe uma filha, com cinco anos apenas, mas não parecia incentivo suficiente para ele ter novamente vontade de viver. Todas as noites, postava-se de joelhos perante a resposta silenciosa das fotografias e objectos pessoais dos entes falecidos, e com uma dor que lhe dilacerava as entranhas chorava compulsivamente, lamentando-se:– Por que não fui eu buscar o miúdo ao colégio – não parava de pensar –, talvez evitasse o acidente. O propósito da minha visita era conversar com José sobre as virtudes do perdão e a intemporalidade do amor que continuava a existir, mesmo após sucumbirmos à tragédia da morte. Talvez, pensáramos, ele fosse sensível a esta filosofia de vida. Ajudá-lo-ia a suportar a dor e tínhamos a esperança, que talvez pudesse libertar-se mais rapidamente do luto.
Tudo isto foi-me contado pelo André, o meu aluno que ia ao volante e conduziu durante o trajecto de cerca de uma hora. Agora estávamos os dois em silêncio sentindo a quietude do entardecer de um dia quente, soalheiro. Entretanto chegamos ao local onde vivia o familiar o seu familiar. Era uma bonita vivenda térrea toda pintada de branco, onde se destacava o alaranjado das telhas barrentas. No crepúsculo de um dia solarengo que findava, avistei um pequeno jardim um pouco descuidado. Só então olhei o passeio fronteiro. Reparei numa criança que parecia brincar sozinha no ladrilho do passeio, e bem junto à estrada. Entretanto, o meu aluno atravessou o portão rangendo semiaberto e bateu à porta. Instintivamente, atravesso a estrada.
Aproximo-me do petiz que brincava sozinho do outro lado e pergunto-lhe:– Olá pequeno, não será perigoso brincares tão perto da estrada? Os carros passam a grande velocidade... – disse, fazendo-lhe uma festa no cabelo encaracolado. Por que não vais brincar para aquele descampado? – indaguei apontando-lhe um terreno baldio em frente.– Pois, o senhor tem razão – respondeu-me sem levantar os olhos –, mas o meu amigo Pedro não quer sair daqui.De súbito percebi. Intuitivamente, senti que havia algo de estranho naquele local. Surpreendentemente, desde que sai do carro, sentia uma espécie de tremor inexplicável a percorrer a minha coluna e não percebia bem porquê. Aventurei:– Onde está o teu amigo?– Aqui! – ele levantou para mim os seus olhos espantados. Mesmo ao meu lado no passeio! Não está a ver, senhor? – a criança apontou para o lado! Notava-se no seu rosto alvo que estava surpreendido pela minha pergunta. Eu, na realidade, não estava a ver nada. Mas achei por bem fingir que via alguma coisa para não desiludir a criança. Todos sabemos como as crianças pequenas têm amigos imaginários, pensei que era o caso. Novamente perguntei:– Pergunta ao teu amigo por que ele não vai brincar contigo para aquele relvado...Para meu espanto, o petiz olha para o lado e repete o que acabei de dizer. Ao mesmo tempo apontou para o descampado que tinha acabado de referir:
– O Pedro diz que até gostava, mas não pode. O seu pai sempre lhe disse para esperar por ele no fim das aulas da escola – disse-me a criança encolhendo os ombros e parecendo resignada.– Pergunta-lhe se está há muito tempo nesse local... – quis saber.– Diz que não sabe – acrescentou o miúdo –, mas sempre que posso venho brincar com ele. Está sempre neste local à espera do pai – descreveu enquanto sussurrava baixinho para o lado.– Sabe, senhor? Este menino nunca tira a mochila dos ombros, e às vezes quando fica sozinho vejo-o chorar. Diz que ouve a voz do pai a chamá-lo, mas o pai nunca o vem buscar – disse, olhando-me nos olhos, aquela inocente criança fazendo um beicinho.– Que pena – anui –, e tu que fazes, pequenino? O que lhe respondes? – esbocei um sorriso para o garoto, procurando alegrá-lo.– Eu digo para ele não ficar triste, pois eu prometo-lhe que volto sempre para o seu pé. Todos os dias, quando acabo as aulas, passo por aqui e brinco sempre um pouco com ele. Novamente, ouço-o a murmurar baixinho para o lado.
Agora entendia bem porquê, seguramente não era um amigo imaginário. Era uma conversa a três:– Sabe, meu senhor – segredou-me aquela criança, aproximando a mão sedosa da boca –, o menino fica aqui todas as noites, e o pai não o vem buscar. Tenho pena dele, mas a minha mãe chama-me e tenho que ir para casa. Continuou:– Ás vezes, após o jantar e quando me vou deitar, eu olho da janela do meu quarto ali em frente – apontou para um bloco de apartamentos em frente – e o meu amigo continua aqui, toda a noite. E de manhã também está – prosseguiu. Eu fico triste, mas deve ter um pai muito mau, não acha? Eu não gosto dos pais que se esquecem de meninos. E ele ainda é pequenino, como eu também sou. Eu não posso fazer nada –, disse encolhendo os ombros.
Olhei para a inocência daquele pequeno ser. Não parecia ter mais de sete anos, cabelos grisalhos e olhos castanhos cor de amêndoa. Era apenas ele, a única companhia daquele ser espiritual que não se dera conta que pereceu. Naquele momento imaginei: talvez esteja na presença de um espírito de uma criança, e aparentemente estava confuso e perdido. Ele certamente não tinha consciência de que morrera. E, na confusão do momento trágico, o apelo de seu pai sofrido, que insistentemente o chamava com a voz da sua dor, reteve-o depois de falecer. Após o acidente, aparentemente, não conseguiu partir para a luz. Obedecia ao comando do seu pai que, insistentemente, lhe dizia todos os dias:– Quando acabar a escola não vás com ninguém, espera pelo pai. Eu virei sempre buscar-te. Era isso que o seu pai ensinara. Quem sabe, os lamentos constantes e diários do pai recordá-lo-ia dessa obrigação. Após dois anos daquele fatídico acidente, dia e noite, aquela Alma que outrora fora criança permanecia presa a um nível denso de matéria. Presa pela ternura e amor que tinha pelo pai. Um amor que, em vez de o libertar, estava aprisioná-lo à matéria. Mas ele era agora energia diáfana, luminosa, pura e não sabia tirar partido disso. Aparentemente não partira para a luz, porquê?.. Como podia transmitir isto ao seu pai sofredor?
Agradeci à criança pela companhia e carinho que demonstrava ao seu amigo espiritual e, mentalmente, enviei mensagens de paz e amor para a Alma da criança presa aquele local. Entretanto, a voz de chamada do meu aluno André fez-me voltar à consciência. Logo que me despedi das crianças passei o portão e fui convidado a entrar. Na sala deparo-me com a imagem deplorável de tristeza e abandono de um homem sem esperança. Então, em conjunto, encetámos um diálogo sobre a perda e trabalho do luto. Durante algum tempo esperei sem tocar no assunto, esperava uma abertura no coração cheio de tristeza e desalento daquele pai. Em certa altura, seguindo a minha intuição, abordei a experiência ocorrida momentos antes, lá fora no passeio, quando cheguei: … E o menino disse que o seu amigo invisível se chamava Pedro... – acabei por dizer, ao terminar a minha explicação. Naquele momento, a expressão facial de José alterou-se por completo.
Passando de um estado de total indiferença para um estado de espanto e admiração. Fez-se um silêncio gutural, interrompido por um “baque” seco. Olhei! A garrafa de cerveja, que momentos antes segurava na mão, rolava agora pelo chão molhando o soalho. Era evidente que tinha de fazer alguma coisa. José levantou os olhos marejados de lágrimas. E num grito sufocante, mas impossível de controlar, começou a chorar soluçando violentamente. As lágrimas escorriam soltas pelo seu rosto surpreso. Lavado em lágrimas, pôs-se de pé, levou as mãos aos olhos para conter as lágrimas, e respondeu:– Disse Pe... Pedro? Pedro era o nome do meu menino! – murmurou ele. O meu Pedro? É o meu filhinho, e teria agora dez anos… ele chamava-se Pedro – disse agonizante. Era por volta desta hora que ia buscá-lo – apontou o exterior. Eu dizia-lhe todos os dias: espera sempre por mim, não partas com ninguém… e se ele estivesse vivo… estaríamos agora a chegar a casa. Estaríamos a rir como duas crianças. Enxaguou as lágrimas e continuou:– Foi uma coisa que eu sempre quis fazer com ele… ir buscá-lo à escola. Perante o tremendo sofrimento senti-me tão comovido que peguei nele e abracei-o. Como me doía aquela dor de pai. Todos somos pais cedo ou tarde, compreendia a sua dor, o seu desalento e insistente pergunta:– Porquê o meu filho, meu Deus? – apertou-me forte e prosseguiu no meu ombro:– Agora nunca mais... nunca terei essa oportunidade… E o meu menino está a apanhar frio lá fora. Por minha culpa… Que espécie de pai sou eu?... Abandonei o meu menino… Não mereço perdão – rebateu ele com um sofrimento humanamente insuportável. Entre soluços sofridos sentia o seu coração que batia forte junto ao meu.
Quando, finalmente, conseguiu acalmar um pouco iniciei um exercício de visualização orientada com ele, ali mesmo no sofá da sala. Instruí-o para fechar os olhos de fora e abrir os olhos de dentro, disse-lhe que podia visualizar o seu filho a esperá-lo na escola e no percurso até casa, aproveitar para fazerem as pazes. E falarem de tudo o que realmente necessitavam dizer um ao outro. Durante todo o processo de transe ele chorava baixinho notoriamente estava muito emocionado. Mais tarde interroguei-o sobre o que ele tinha experimentado:– Eu vi o meu filho – disse-me – e era muito real. Comecei por explicar-lhe que senti-me muito triste com a partida dele e da mãe e, nessa altura, ele falou comigo! «Não tens que te preocupar com a mãe, paizinho… ela já partiu há muito tempo. Mas está lá no alto, vive na luz. Ela disse-me que continua a gostar de ti, e agradece tudo o que fizeste por ela. Pediu para dizer que foi uma mãe e uma esposa feliz ao teu lado» – disse-lhe o seu filho. Ele respondeu: «Mas eu quero-te aqui comigo para sempre.»O filho disse então:«Eu estou sempre contigo, pai. E amo-te muito, mas preciso da tua autorização para partir. Preciso da tua bênção, paizinho.»
«Está bem, meu querido menino!» – respondeu. «Parte em paz, meu filhinho.»– Então de repente senti uma luz tão intensa e tão brilhante – continuava – e vejo uma imagem de anjo que o levou numa escadas feitas de luminosidade até entrar na luz que brilhava bela e intensa lá no alto. E vi alguém que o esperava na luz. E soube intuitivamente que era a sua mãe. A minha querida esposa Teresa que veio buscar o nosso menino. E que vai tomar conta dele, e essa sensação deixou-me finalmente descansado. Naquela ocasião parou um pouco para enxaguar as lágrimas e prosseguiu:– Um maravilhoso Ser feito de Luz veio buscar o meu filho. E pouco tempo depois, veio ter novamente comigo e disse-me: o teu filho está agora no colo de Deus. Ele é abençoado pela energia do amor. E ele manda dizer-te isto: «Adeus meu querido pai, vai em frente. Estou feliz por ti. Tu és lindo, és brilhante és um vencedor. Agora tu podes ser alegre… Tu podes ser independente… Tu podes ser feliz… E diz à mana, que todas as noites tem rezado por mim, que também gosto muito dela.»
Aquela visão poderosa e a conversa com o filho ajudaram-no imenso a começar a curar a ferida aberta. Aquela criança perdida no mundo terreno era a sua própria experiência de redenção. Ele sentia que tinha realmente falado com o filho, estabelecido um contacto com algo superior e que o acalmava. Talvez continuasse a sentir dor, mas a recuperação do sofrimento lancinante da perda tinha começado, da forma mais bela possível. Actualmente, este homem que vivera um luto de amargura e de sofrimento é um ser de uma qualidade espiritual, uma capacidade de amor e de uma ternura absolutamente excepcionais.
Eu imagino o que possa estar a pensar agora, e será mais ou menos isto: Não é possível que neste caso o senhor estivesse a imaginar, ou mesmo fossem desejos inconscientes de um pai amargurado pela morte de um filho?..Tenho de admitir que é uma das possibilidades. Efectivamente, não é fácil provar por evidências científicas estas notáveis experiências espirituais. E, no entanto, creio que esta experiência se reveste de características realmente verdadeiras e empiricamente observáveis. E sinceramente, não é crível que a fantasia e o desejo de realização produzissem tamanhas forças de cura, se não assentassem numa base de profunda verdade de um ser eterno que tem tanto de complexo como de extraordinário.
Na realidade, sou questionado inúmeras vezes pelos cépticos para a veracidade do que os pacientes relatam num estado elevado de consciência. Sinceramente, se tais encontros são de facto reais é difícil de provar. Porém, é fácil provar os efeitos tremendamente benéficos que opera no paciente sofrido pela perda dos seus familiares. E sobretudo é fácil constatar factos, pormenores e informações que apenas eram do conhecimento do falecido. Todos sabemos que algumas revelações que resultam destas despedidas espirituais são difíceis de atribuir apenas à imaginação ou desejos inconscientes.
Os encontros são extremamente vívidos e repletos de sentimentos e pormenores que só dizem respeito àqueles seres, que estimula o término do luto. Na realidade, mensagens tão simples como: “Fica tranquilo, eu estou bem”; “Cuida de ti. Amo-te para sempre.”; “Não morremos, apenas evoluímos”. - partilhadas pelo falecido, num processo de Despedida Espiritual, têm o poder de devolver a paz a quem não foi capaz de se libertar do espartilho do luto. E penso que isto é algo que vale a pena ouvir de quem amamos, não é? E seja o que for que surgir numa fabulosa experiência de Despedida Espiritual são todos poderosos processos de cura para os males de uma Alma desassossegada pela ausência dos seus.
Nos últimos tempos, em várias intervenções públicas, tenho referido a possibilidade de despedirmo-nos dos entes queridos num estado elevado de consciência. Sabemos que, aparentemente, não os vimos com os sentidos físicos. Mas sentimo-los tão intensamente com os nossos olhos, ouvidos e todos os outros sentidos da Alma. Daí a necessidade de o paciente entrar numa espécie de transe hipnótico. Através de ondas Alpha, Tetha e Delta será capaz de comunicar com um mundo que supostamente vibra de forma mais leve e sublime. Convenientemente, chamado ao logo da história pelos místicos, cabalistas, gnósticos e outros de Mundo Espiritual. De facto, é um acontecimento extraordinariamente belo e valioso para todos aqueles que têm experimentado encontros místicos com familiares já falecidos. Estou convicto de que há fortes possibilidades de prendermos os nossos entes amados num nível energeticamente denso. Isto é, impedi-los de partir do mundo terreno, o mundo da matéria física onde vivemos.
Não obstante o amor profundo que temos por eles, atraímo-los com o nosso sofrimento. Aparentemente, eles ficam entre dois mundos, perdidos e confusos, querendo comunicar-nos que estão bem e que nos amam muito. Na realidade, eles não partem para a luz ao ver-nos sofrer continuamente num luto demasiadamente longo. E o que agrava ainda mais a situação, na maior parte das vezes para quem sofre, o luto, no momento de maior saudade, é vivido com frases do género: Por que foi que me deixaste?... Não posso viver sem ti!... Volta para mim por favor… preciso de ti!
Acredite ou não, a minha experiência de mais de catorze anos nesta área, junto com centenas de regressões entretanto efectuadas, tem demonstrado que um luto demasiado sofrido só contribui para prender os nossos entes queridos à matéria terrena. Porém, com a agravante de que esses seres queridos, que tanto amamos, já não possuem o invólucro carnal para viver juntos connosco. Possivelmente, ficam presos naquilo que alguns designam como “Limbo” – o espaço entre o mundo físico e o mundo espiritual, uma espécie de “terra de ninguém” onde permanecem um tempo indeterminado a sofrer por nós. Sobretudo, não partem para a luz enquanto não ficarmos bem. Seguramente, todos conhecemos pessoas que passam anos vestindo continuamente de preto. Não porque esteja na moda, mas porque continuam agarrados ao apego dos familiares já mortos e, sem saberem, impedem-nos de evoluir. Quantos seres, consegue imaginar, sem corpo físico estão procurando continuamente contactar-nos para simplesmente dizer: Fica em paz pois eu não morri, apenas evolui. Acredite, são inúmeros. Entristece-me esta dura realidade, infelizmente.
Da morte nascemos – é uma realidade tão antiga como a própria humanidade. Confesso, não é fácil aceitar de ânimo leve a partida de uma pessoa amada. É perfeitamente humano, e até digamos saudável, um período razoável e vivenciado de luto, mas será desejável que este seja célere e aconteça de forma mais espiritual para se tornar efectiva. Ou seja, um momento de tranquilidade e uma conversa interior, evocando simplesmente a imagem da pessoa querida para lhe desejar paz e amor. Ou então, se lhe aprouver, recorrer a um bom terapeuta de regressão e efectuar uma Despedida Espiritual. Permita-me dizer-lhe, mas é a experiência mais reconfortante e significativa para quem quer ver, ouvir, abraçar e demonstrar todo o amor ao nosso ente querido que partiu. Gostaria de assegurar-lhe: é um desassombro da Alma acolhê-lo no abraço mais alvo e envolvente que é possível imaginar. E, o mais extraordinário, é possível fazê-lo através de uma salutar e adequada hipnose de regressão com um bom terapeuta.
Para os mais relutantes em aceitar esta experiência notavelmente espiritual, também podemos ver nisto uma abordagem mais consentânea com a psicologia científica. Com efeito, Sigmund Freud, no seu artigo clássico Luto e Melancolia, chamou a este processo como o trabalho de luto. O trabalho de luto é descrito como um processo psicológico dinâmico em que após a perda de um ente querido, nomeadamente alguém a quem estávamos muito ligados, o nosso sistema nervoso fica temporariamente desorganizado. Isto também acontece em algumas situações de mudanças drásticas, na sequência de um acontecimento que põe em causa o sentimento de segurança no nosso quotidiano. Assim, aquilo que o Freud designou como o trabalho de luto mais não é do que uma Despedida Espiritual, quer dizer, o tempo mais ou menos longo, mas necessário para que o equilíbrio pessoal possa ser reencontrado na libertação do apego pelo ente querido. Numa perspectiva psicanalítica, este hiato de tempo sendo compreendido, sem se alongar demasiado, geralmente reforça o organismo.
Em termos cognitivos, a pessoa que trabalhou o luto esgota o sofrimento que ele continha. Ao fazê-lo cresceu com a provação e dispõe agora de uma maior flexibilidade e novos recursos adaptados às situações que terá de enfrentar: A Psicologia Positiva defende que as adversidades enfrentadas ou o luto trabalhado leva muitas vezes à resiliência. Isto é, o domínio psicológico da pessoa extrai a lição da provação e desembaraça-se aos poucos das emoções e dos pensamentos negativos, pois não são mais necessários, uma vez compreendido o acontecimento.
Mas uma coisa parece estarmos todos de acordo torna-se fácil e gratificante perceber que a possibilidade de podermos novamente falar com as pessoas que amamos, pedir-lhes desculpas por eventuais faltas cometidas por ambos, e ficar finalmente em paz é de suma importância no ultrapassar do luto e da perda. Não gostaria de falar tudo o que ficou por dizer, olhá-los mais uma vez nos olhos e simplesmente ouvi-los pronunciar Amo-te muito para toda a eternidade? Já pensou nisso? Provavelmente, ao ler isto imagino que concluirá: será assim tão fácil contactar os entes queridos? Como isto é possível se eles já morreram? E, no entanto, através de um estado elevado de consciência é possível aceder à Alma de cada um. E através dela contactar com outras dimensões espirituais que coabitam connosco numa realidade espaço-temporal diferente da nossa. Acessível em estados de transe profundo e orientados através de um processo extraordinariamente simples, de visualização orientada sob o efeito da hipnose. E tanto o paciente como o facilitador podem beneficiar-se mutuamente com esta aceitação de ressonância notavelmente espiritual. É esse o extraordinário poder da hipnoterapia e o caminho é para o interior onde mora o divino em cada um.
Sejamos francos, não sei se a Terapia de Vidas Passadas é o meio mais adequado para falar com familiares que já partiram. Mas do que não resta dúvida é a transformação que se opera em nós, quando falamos com pessoas que amamos e que já faleceram. Decerto fica satisfeito em saber que em transe, ao projectamos luz e amor no mundo espiritual, recebemos em dobro as graças concedidas. Estou certo, e ninguém discordará, que o amor é a única “mercadoria” que se multiplica quando se reparte.
Efectivamente, uma sessão de Despedida Espiritual é um acto de profundo amor. E, estou em crer, quando olhamos para a Luz ela também olha para nós preenchendo-nos com os seus poderosos efeitos de divindade espiritual. Saibamos olhá-la com sincera ponderação e sabedoria espiritual para beber dos seus maravilhosos ensinamentos.
Um abraço de luz bem forte e apertado:
(Crónica baseada no meu último livro. “O Sentido da Vida.” - Editora: Vogais & Companhia)

Alberto Lopes



