Sono da Verdade
O trabalho efectuado pelo hipnotera-peuta Alberto Lopes na SIC, abriu a mente dos portugueses para o mara-vilhoso potencial da hipnose e regres-são clínica como técnica terapêutica.
Crónica: Viver o Mistério da Vida
“Ninguém escolhe como se
vai morrer, nem mesmo quando. Todavia, podemos decidir como vamos viver.”
(Joan Baez)
A vida em si parece um
mistério cuja solução desafia cada um de nós a encontrar o verdadeiro
sentido para a nossa existência. Não podemos ignorar que muitos dos que aqui
estão tiveram de passar por grandes dificuldades e vidas seguramente
atribuladas. Se é verdade que vivemos tempos árduos e plenos de angústias e
de incertezas, também não é menos verdade que parte da solução passa por
fazer a nossa parte na caminhada pela vida. Talvez o principal mal das
sociedades actuais seja a solidão. Mas, por mais estranho que possa parecer,
é uma solidão compartilhada e vazia de afectos. Parece um paradoxo, mas numa
sociedade de meios fáceis de comunicação à distância, vivemos cada vez mais
isolados e com medo de viver. Como diz José Gil, um dos maiores pensadores
da actualidade: “Temos medo de existir…”
O que me continua a pesar é
conhecer pessoas que acordam todos os dias e que sentem o eterno vazio de
não ter nada à sua espera. É o cenário de sempre, as pessoas confidenciam-me
que vivem a vida numa rotina diária, uma espécie de sucessão de tarefas sem
significado e vazias de sentido. Mas eu entendo que a vida é uma dádiva e
tem de ser mais do que riscar tarefas de uma lista qualquer. Penso que
concorda comigo? Também acredita que esta forma amorfa de estar na vida é
pouco, para seres tão especiais como nós, não é?
Creio que todos sabem
sobreviver, de uma forma ou de outra, mas entendo que precisamos é de
conviver, interagindo com os nossos semelhantes. Correndo o risco de
hiperbolizar: o objectivo da sua vida é viver. E viver significa estar
desperto e apaixonada/o pela sua vida. É possuir um sonho, poder partilhar
um projecto válido e que valha a pena acreditar. Talvez viver signifique
estar mais alerta para as pequenas coisas da vida e que podem fazer a
diferença. É acreditar na possibilidade de uma vida perfeita, pura, bela,
absoluta. É ter coragem de darmos as mãos e em conjunto fazer a diferença,
pois o mal não é ter um sonho impossível. O mal é morrer por dentro, sem ter
um único sonho para alimentar a sua Alma. Sabemos que podem tirar-nos tudo
na vida, mas nunca os nossos sonhos e os sonhos são o alimento da sua Alma.
É esse o nosso maior projecto de vida, assumimo-lo quando decidimos viver
nesta época e renascer na família que escolhemos. Provavelmente o segredo da
vida é ter a capacidade de viver cada momento como se estivesses a construir
um templo, o santuário da sua vida, pois o seu corpo só pode ser o templo da
sua Alma ancestral. Peggy Ayala disse um dia: “Se você não tomar conta do
seu corpo, para onde vai viver?..”
Aparentemente, todos sabemos
que devemos tornar a nossa vida o melhor lugar para se viver. Mas compreendo
que ainda há quem tenha dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo. E,
convenhamos, é preciso coragem para cortar com as normas e crenças arcaicas
que nos incutiram desde a infância. Atentemos que encontrar um sentido para
a vida é claramente um acto de coragem, mas também o gesto mais lúcido e de
clareza espiritual que podemos intuir. E, embora o mundo se empenhe em
dizer-nos o contrário, nós ainda temos o direito de ser perfeitamente
imperfeitos, e mesmo assim sermos felizes na senda evolutiva.
Tenho de confessar que eu
ainda não encontrei a “pedra filosofal” da felicidade. Efectivamente,
não sei o segredo da felicidade, mas sei que o segredo da infelicidade é ter
medo de existir e não fazermos nada para alterar este estado de apatia
generalizada. Talvez a vida aconteça quando decidirmos tomar o nosso lugar
no mundo, pois a nossa natureza é a mudança e ela realmente acontece quando
decidirmos tomar o nosso lugar na senda espiritual. E convenhamos, eu
imagino que vale a pena em cada manhã abrir as janelas e termos a impressão
que a vida nos espera para mais um desafio, sabendo que a nossa natureza é a
mudança e a escola da vida é o nosso maior desafio.
Por vezes, os tempos
difíceis podem e devem aproximar as pessoas para se unirem num projecto
válido e em que vale a pena acreditar. Seguramente, em conjunto, fica mais
fácil chegar à eternidade espiritual. Já sabemos que a vida não é um fim em
si, mas um veículo que nos ajuda a experienciar os valores e objectivos de
cada Alma. E que, por vezes, estão para além da razão presente, mas num
continum espaço-temporal que deve ser experienciado e vivido na sua
plenitude. Como diria Séneca, filósofo grego: “Enquanto viveres, aprende
a viver.”
A sua vida pode e deve ser
vivida em pleno. A vida é feita de escolhas e possibilidades: evidentemente,
pode passá-la a dormir ou a ver televisão horas seguidas, é um direito que
lhe assiste. Mas dificilmente encontrará a mensagem que necessita para os
problemas reais da sua existência. Em cada momento que somos capazes de sair
dos muros que criámos à nossa volta e interagimos com os outros, recolhemos
uma mensagem e uma lição a aprender. Cada pessoa que se cruza connosco na
senda espiritual tem uma mensagem para nós. Cada um de nós transporta uma
Alma que espera ansiosamente a hora de se encontrar com outras Almas
Companheiras. Para um reencontro e renascimento maravilhoso, na companhia do
nosso grupo de Almas. De igual modo, a sua Alma anseia eternamente esse
edílico encontro. E, quem sabe, esse desejo de reciprocidade que transcende
a nossa natureza terrena tornando-nos cidadãos do Universo caminhando sempre
para a Luz.
Somos essencialmente seres
espirituais e precisamos de nos relacionar com os outros para nos completar,
é esse o nosso jeito de ser. A alegria de dar uma parte de nós e
compartilhar com os outros afectos e emoções, engrandece-nos como seres
humanos e completa-nos como seres espirituais. É esta noção de procura de
novos caminhos de reciprocidade entre Almas Companheiras que eu encontro em
cada sessão de regressão. E é uma questão crucial para o equilíbrio e saúde
do ser eterno temporariamente reencarnado.
E se é verdade que se não
ligarmos às pessoas e aos sonhos não teremos desgostos, também não é menos
verdade que se não tivermos sonhos, nem alguém a quem amar, de que vale a
vida sem ser partilhada? Creio que dessa forma a vida passa por nós sem nós
passarmos por ela.
Para concluir, eu não sei
totalmente o que nos espera quando morremos, não sei o que está na Luz, mas
sei que não são sentenças, mas amor, compreensão e oportunidades de mudança
e crescimento interior se fizermos as nossas escolhas acertadas, agora. E,
se mais não fosse, talvez precisemos novamente recordar as coisas boas da
vida, se não o fizermos não as reconhecemos nem que nos caiam em cima.
Um abraço de luz, bem forte
e apertado…

Alberto Lopes



