Sono da Verdade
O trabalho efectuado pelo hipnotera-peuta Alberto Lopes na SIC, abriu a mente dos portugueses para o mara-vilhoso potencial da hipnose e regres-são clínica como técnica terapêutica.
O que acontece na Ante Sala da Morte
" Cardiologista rompe o silêncio da ciência sobre relatos feitos por pessoas "ressuscitadas" Acostumados a lutar contra a morte, dificilmente se esperaria de profissionais racionais como os médicos, uma reflexão ao estilo de Hamlet , de Shakespeare, diante do fantasma do seu pai sobre o que pode acontecer depois da consciência abandonar o corpo. Nos últimos tempos, porém, quando se tornaram frequentes os casos em que massagens cardíacas e estimuladores eléctricos restauram a consciência ou a vida de indivíduos clinicamente mortos, a discussão tornou-se obrigatória.
Nas conversas de corredor dos hospitais, cirurgiões e anestesistas contam histórias de pacientes que se lembram do que sentiram e viram nos minutos em que pararam de respirar e o cérebro deixou de receber oxigénio. Mais pragmático que os colegas, o cardiologista holandês Pim van Lommel resolveu dar a essas conversas um tratamento científico. Lommel compilou as entrevistas dos pacientes que 'passaram para o lado de lá' e que voltaram. A experiência foi publicada na respeitada revista médica inglesa The Lancet e causou polémica no mundo todo.
O holandês Lommel juntou-se a um punhado de especialistas acostumados a mexer com temas mais familiares hoje em dia aos místicos, paranormais e também aos aventureiros e ilusionistas do que aos médicos. As conclusões a que chegou são consideradas no mínimo impressionantes.
O cardiologista entrevistou 344 pacientes de dez hospitais da Holanda que tinham sido considerados clinicamente mortos – condição estabelecida a partir de um electrocardiograma. Para os médicos, uma pessoa é considerada clinicamente morta quando o cérebro não recebe suficiente sangue, como resultado de falta de circulação, oxigenação ou de ambos. Nestes casos, se não forem realizadas tentativas de ressuscitação num prazo de cinco a dez minutos, os danos cerebrais tornam-se irreparáveis e não há como sobreviver. Dos pacientes entrevistados, 62, ou 18%, disseram ter passado por uma experiência que os estudiosos chamam de quase-morte. Os outros 282 não lembravam de coisa alguma do período em que estiveram inconscientes.
Nos casos das recordações, as pessoas relatam diferentes tipos de visões. As mais comuns são as sensações de se ver fora do corpo, a percepção de uma luz em um túnel escuro, o encontro com amigos e parentes queridos já mortos e a revisão da própria vida em flash-back . Os relatos não são originais. Desde que o assunto começou a ser estudado pelo americano Raymond Moody, em 1975, os estudiosos perceberam que as lembranças, embora não sejam idênticas, obedecem a um mesmo padrão. Isso acontece, notaram os estudiosos, mesmo em culturas diferentes. Pessoas em estado terminal, com câncer ou Sida, ou que entraram em coma em consequência de acidentes ou tentativa de suicídio também relataram experiências similares.
OS RELATOS REPETEM-SE
Embora não sejam idênticos, os relatos de pessoas que disseram ter passado por uma experiência de quase-morte (near-death experience, ou NDE, em inglês) têm muitos elementos em comum, conforme foi observado pelos estudiosos desse tema. A seguir, são descritas algumas dessas semelhanças.
Projecção do corpo: A sensação de que a pessoa deixou o corpo e que está a pairar por cima dele. Ela pode mais tarde descrever quem estava no local e o que aconteceu.
Movimento num túnel: A sensação de se mover num túnel escuro.
Bem-aventurança: Lembrança de ter sentido uma emoção profunda.
Visão de luz: A sensação de ir de encontro a uma luz descrita como dourada ou branca e que exerce uma profunda atracção.
Encontro com pessoas mortas – Podem ser pessoas muito queridas que já morreram, reconhecidas ou não, seres sagrados, entidades não identificadas ou 'seres de luz', muitas vezes símbolos religiosos.
Revisão da própria vida: A sensação de ver ou reexperimentar eventos significativos ou triviais da própria vida, algumas vezes sob a perspectiva de outras pessoas envolvidas. Como resultado disso, a reformulação das próprias opiniões sobre as coisas e mudanças que serão necessárias caso tenha uma segunda oportunidade.
Entendimento: A sensação de entender tudo e de saber como o Universo funciona.
Obstáculo: A sensação de ter chegado a um abismo, cerca, água ou algum tipo de obstáculo que não pode ser cruzado se a pessoa pretende voltar à vida.
Retorno à vida: A decisão de voltar a viver é voluntária e normalmente associada a alguma tarefa que ficou inacabada ou à existência de filhos.
Memória falsa
Lommel queria estabelecer a periodicidade desses casos em pacientes que tiveram ataques cardíacos e os factores que afectavam a frequência, conteúdo e profundidade das experiências, tais como intensidade dos ataques, tipo de medicação, sexo, idade, religião e grau de educação. Para isso, usou vários tipos de entrevista-padrão aceites normalmente em análises científicas. Fez novamente as mesmas entrevistas dois anos depois dos ataques cardíacos, com os sobreviventes, comparando com aqueles que, embora também estivessem clinicamente mortos, não se lembravam de ter passado por essas experiências.
Dois anos depois dos ataques, 19 dos 62 pacientes tinham morrido e seis recusaram-se a ser entrevistados de novo. Lommel só pôde entrevistar 37 pacientes, mas todos contaram novamente as suas experiências quase com as mesmas palavras. Curiosamente, quatro pacientes do grupo de controlo, ou seja, que não tinham relatado a visão de quase-morte da primeira vez, mudaram o seu depoimento. Lommel sugere que esses pacientes poderiam ter-se sentido pouco à vontade para descrever o que passaram na primeira entrevista, mas não há como descobrir se isso de fato ocorreu ou se eles simplesmente desejavam acreditar que também tivessem passado pela experiência. Estudos recentes na área de psicologia mostram que ao imaginar que viveram certas situações, muitas pessoas podem desenvolver o que se costuma chamar de memórias falsas.
Mudanças de vida
Durante 12 anos, o cardiologista-chefe do Hospital Rijnstate, Pim van Lommel, em Arnhem, na Holanda, acompanhou os 344 pacientes do seu estudo, publicado na revista médica inglesa The Lancet . Eram cardíacos que sofreram processo de reanimação em dez hospitais. Entre os 62 que disseram lembrar-se do que ocorreu no momento em que estavam clinicamente mortos, 13 (ou 12%) morreram logo depois de serem entrevistados - um índice significativamente maior do que entre aqueles que não se lembravam de nada. A idade média dos pacientes era 62 anos e havia um com apenas 26 e outro com 92 anos. Lommel relata que todos os 38 pacientes remanescentes da sua pesquisa, com recordações ou não de ter passado por uma experiência de quase-morte, relataram uma grande mudança nas suas vidas. Sentiam-se melhor com mais auto-estima e com valores religiosos mais fortes.
O acompanhamento de doentes terminais ganhou força no fim da 2ª Guerra Mundial com o trabalho da investigadora suíça Elizabeth Kubler-Ross, iniciado nos campos de concentração da Polónia. Como professora-assistente de Psiquiatria no Billings Hospital de Chicago, ela criou o termo tanatologia, que significa o estudo das necessidades dos que estão próximos da morte. Começou a guardar relatos dos seus pacientes e notou que muitos deles falavam de experiências fora do corpo, túneis de luz e sensações de bem-estar; as mesmas lembranças relatadas pelos pacientes de van Lommel no seu estudo.
Sem explicação
O resultado das entrevistas realizadas por Lommel com os pacientes demonstrou que não havia um padrão definido nem nenhum factor físico, como a duração do problema cardíaco, a medicação ou os danos à saúde que poderia ter influenciado aquelas visões. Além disso, as entrevistas não confirmaram uma coincidência de fautores psicológicos ou culturais, como medo da morte, experiências traumáticas, idade, sexo ou religião que poderiam ter criado um estado mental favorável àquela situação.
Conforme Lommel declarou a GALILEU : 'Não há uma boa explicação para a origem ou as causas das experiências de quase-morte. Se os factores médicos, psicológicos ou neurofisiológicos, por exemplo, fossem os responsáveis por essas visões, todas as pessoas deveriam ter passado por uma experiência semelhante, o que não ocorreu'. Então, o que aconteceu?
As explicações de Lommel surpreendem e contrariam o que normalmente se aceita em ciência. Baseado nas observações, ele acredita na 'possibilidade da recepção da consciência e não da sua produção pelo cérebro.' Ou seja, o cardiologista levanta a possibilidade da consciência não estar dentro do cérebro, portanto, não depender exclusivamente do funcionamento dos neurônios para existir. 'Como pode ocorrer uma consciência clara no momento em que o cérebro não está mais funcionando?', pergunta ele. 'O conceito até agora proposto, mas nunca comprovado, de que a consciência e a memória estariam localizadas no cérebro deveria ser revisto', afirma.
Segundo Lommel, o relato dessas visões amplia os limites do conhecimento sobre a consciência humana e sua relação com a mente-cérebro. Essa argumentação não é aceite com naturalidade por outros cientistas. O pesquisador Christopher French, da Unidade de Pesquisa em Psicologia Anómala da Universidade de Londres, afirma que a pesquisa, embora meticulosa, não consegue comprovar se as experiências ocorreram de facto durante o período em que os pacientes estavam clinicamente mortos ou um pouco antes ou um pouco depois.
French faz uma chamada de atenção num comentário na mesma edição da revista The Lancet onde Lommel publicou o artigo. Apesar da pesquisa não mostrar uma resposta convincente, segundo ele, 'estudos deste tipo devem ser considerados um avanço diante das experiências anteriores que visavam explicar o fenómeno. Para French, 'a natureza das relações entre a mente e o cérebro e a possibilidade de vida após a morte são algumas das questões mais profundas sobre o lugar do homem no Universo'.
No entanto, para Luiz Eugênio Mello, professor de neurofisiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), as visões relatadas por Lommel têm uma explicação mais simples. 'É uma situação semelhante ao que ocorre quando uma pessoa é anestesiada', afirma. 'Ela pode sonhar, ter alucinações e perceber o que ocorre à sua volta.' Da mesma forma, diz o professor, a experiência pode ocorrer em pessoas que inalam éter, cola de sapateiro ou perfume. Essa associação, porém, não explica porque é que os pacientes clinicamente mortos, ou seja, sem estimulação do cérebro, têm visões deste tipo. Daí a falta de um consenso entre os especialistas.
Colega de Mello na Unifesp, Cícero Galli Coimbra, por exemplo, afirma que o fenómeno das visões de quase-morte não pode ser explicado pelos conhecimentos actuais de neurofisiologia. 'Se o resultado do eletroencefalograma for nulo, teoricamente os neurónios não estão a comunicar, disse Coimbra. 'O fenómeno sugere que existe alguma espécie de estrutura de natureza desconhecida da física. Talvez o cérebro tenha uma forma de projectar a consciência. Isso pode ser o que se chama de alma ou espírito'.
"Contei ao médico, mas ele não acreditou"
A pedagoga aposentada Lucy Lutf, de 66 anos, é uma das pessoas que diz ter passado pela experiência de quase-morte. Na verdade, ela relata que isso aconteceu duas vezes. A primeira, durante um acidente, em 1972, quando Lucy foi empurrada por uma onda para cima de algumas pedras à beira do mar, no Guarujá, litoral da cidade de S. Pauloa, no Brasil.
Lucy recorda-se que, enquanto lutava contra a morte, sentiu que o corpo se desligava. 'Deslizei por um túnel, a princípio acinzentado, que depois foi clareando', afirma. 'A minha consciência deslizava por esse túnel e eu revivia toda a minha vida, com os acertos e os enganos.
Quase no fim do túnel, antevi o outro lado, o que me deu uma sensação incrível de tranquilidade e de paz.' Lucy conta que viu o seu corpo a ser salvo por outras pessoas que estavam no local e mais tarde lembra-se de ter sido levada para um pronto-socorro pois tinha engolido muita água.
A segunda experiência ocorreu nos anos 80. Lucy diz que resolveu fazer uma cirurgia plástica e, apesar de ter passado por todas as providências pré-operatórias, sofreu um choque anafilático e uma paragem cardíaca durante a operação. 'Novamente a minha consciência deslocou-se do meu corpo físico e colocou-se acima, em observação, junto ao tecto do centro cirúrgico', conta.
Ela também diz lembrar-se que acompanhava tudo e sentia a preocupação dos médicos tentando fazer com que ela retornasse à consciência. Diz que ouviu o cirurgião plástico comentar que ela estava morta e por isso tentava tranqüilizá-lo. 'Depois de ser medicada e de ser feita a massagem cardíaca, retornei', diz. 'Contei ao médico o que ocorreu, mas ele não acreditou.'
Situação incómoda
Um cientista falar tecnicamente em alma ou espírito – a nomenclatura varia conforme o credo de cada um – e coloca a ciência na delicada posição de lidar com situações anómalas e em campos desconhecidos mais familiares. 'Essas experiências vão ao encontro da percepção das religiões de que a morte é uma travessia, uma porta, não um muro', confirma o teólogo e filósofo Leonardo Boff em entrevista a GALILEU .
Por sua vez, Luiz Eugénio Mello tem um argumento contrário. Sensações e visões semelhantes àquelas experimentadas pelos pacientes de Lommel não também descritas por pessoas muito doentes mas que não estavam ameaçadas de morrer imediatamente. A psicóloga inglesa Susan Blackmore, mais céptica e autora do livro Experiências Fora do Corpo , relata que teve uma visão semelhante enquanto conversava com amigos.

LINHA MORTAL
Filme protagonizado por Julia Roberts conta como estudantes de medicina resolvem atravessar a fronteira da morte e voltar à vida.
Na opinião da psicóloga, não aconteceu nada de sobrenatural na experiência. 'Acredito que o meu cérebro usou a memória e a imaginação para construir a imagem convincente do mundo do ponto de vista de alguém que estava a flutuar por cima do seu corpo', disse em entrevista a GALILEU . Segundo suas pesquisas, 'qualquer droga que leve a um estado de desinibição, provocando um aumento de endorfina no cérebro, pode provocar uma sensação semelhante à das pessoas que passaram pela quase-morte.' Blackmore também acredita que as visões resultam do 'último impulso do cérebro', e estão programadas para ajudar a 'ultrapassar o trauma da morte'. Segundo ela, o sofrimento em casos traumáticos pode ser tão grande que a natureza estaria a preparar uma espécie de alucinação para amortecer o choque da morte.




