Sono da Verdade
O trabalho efectuado pelo hipnotera-peuta Alberto Lopes na SIC, abriu a mente dos portugueses para o mara-vilhoso potencial da hipnose e regres-são clínica como técnica terapêutica.
Vida após a Morte
REPORTAGEM DA REVISTA VEJA DE MAIO DE 2005 - AUMENTA A CRENÇA NAS VIDAS SUCESSIVAS.

É possível que a existência humana, tão complexa e rica, se dissolva quando o coração pára? Com uma resposta prática para esta questão crucial e a promessa de comunicação directa com os mortos, o Espiritismo tornou-se a religião – ou, pelo menos, a segunda opção religiosa – de 40 milhões de Brasileiros.
Gabriela Carelli, Editora
O homem passa boa parte do tempo a projectar o futuro. A descobrir o mundo, aprender novas lições, apaixonar-se, gerar e criar filhos, perseguir objectivos, aspirar à felicidade.
Tudo isto compõe um ritual de celebração da vida e torna tão rica a aventura humana que uma reflexão crucial se impõe: é possível que a existência, tão complexa, se dissolva com fumo assim que o coração e o cérebro param de funcionar? Desde tempos imemoriais o homem recusa-se a acreditar nesta fatalidade.
Todas as religiões, sem excepção, vêem na morte o início de outro tipo de existência que começaria pela sobrevivência de uma parte da essência humana – chame-se a ela de alma, de espírito ou qualquer outro nome. A crença na vida após a morte é universal. Os brasileiros, claro, não são excepção. Entre nós, talvez mais do que entre outros povos, não apenas se crê na eternidade da alma como também se dá como certo que a reencarnação e a comunicação com os mortos são possíveis.
Há nisso um sincretismo religioso tipicamente brasileiro. De acordo com o IBGE, 72% dos brasileiros declara-se católicos e a doutrina da Igreja Católica não concebe a comunicação directa entre mortos e vivos. Pelo menos não entre mortais comuns e mortos idem. A comunicação entre santos e mortais é admitida pela doutrina católica. Mas apenas quando ocorre um milagre. Coisa rara, como se sabe. Na prática, boa parte desse contingente católico também dirige a sua fé ou sofre a influência de outro credo que cresce no Brasil: o Espiritismo.
Segundo essa doutrina, codificada em 1857, na França, por Allan Kardec – pseudónimo do pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail –, a alma de todo ser humano morto reencarna tantas vezes quantas forem necessárias para que, devido às boas acções se purifique. Quando atinge o patamar mais alto torna-se um espírito puro, livre de imperfeições e não mais volta ao corpo físico.
O Espiritismo também acredita que, com algum treino, qualquer pessoa se possa comunicar com os mortos. A questão é: Para quê? Há várias respostas possíveis. A primeira é receber conselhos e orientação daqueles que já superaram os constrangimentos da existência corpórea. A segunda diz respeito à dor humana. Imagine uma mãe que chora a perda de um filho. Pode haver mais conforto que um contacto espiritual no qual ele lhe assegura que passa bem na vida póstuma?
No princípio era o medo. E o medo se fez crença. Para o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) essa seria a maneira mais simples de explicar o surgimento das religiões nas sociedades humanas. Por temor à fome, aos perigos e à morte, em determinada fase de sua evolução cultural a humanidade apegou-se ao fervor religioso. Com ele veio a crença na vida eterna e no renascimento da alma e até do corpo físico numa ou em sucessivas existências. Veio também a ideia de que é possível a comunicação entre vivos e mortos.
De uma maneira ou de outra, as convicções acima estão presentes em quase todas as religiões, mesmo nas que renegam essas facetas. Quando um católico reza para um santo de sua devoção ou quando, em caso de milagre, uma figura sagrada lhe aparece em carne e osso, está a dar-seuma espécie de comunicação entre vivos e mortos. Os Budistas negam a existência de uma alma substantiva, mas acreditam na transmigração do Karma – conjunto das acções dos homens e suas consequências – em algo que só pode ser definido como espírito.
O Brasil sobressai nas estatísticas mundiais como a pátria do Espiritismo de inspiração kardecista – nome que deriva do francês Allan Kardec, estudioso positivista do fim do século XIX que produziu uma versão cientificista dos fenómenos religiosos focados na vida depois da morte. Segundo a FEB, mais de 40 milhões de pessoas seguem a doutrina de Allan Kardec no Brasil. Apenas 2% dos brasileiros se dizem Espíritas nos censos oficiais.
A imensa maioria simplesmente acrescenta, sem drama de consciência, os ensinamentos de Kardec aos das religiões que professam oficialmente. Funcionam no país 10.000 Sociedades Espíritas. Eles eram apenas 3 000 no começo dos anos 90. Duzentas editoras publicam apenas livros dirigidos à Comunidade Espírita. Já foram vendidos 22 milhões de exemplares de sete livros escritos por Allan Kardec no Brasil.
A razão do sucesso é a mesma que alavanca esse tipo de crença em todo o mundo – e alavancou no passado: a rejeição da ideia de que o sofrimento, o som e a fúria sem significado da vida humana possam ser totalmente em vão.
"O Espiritismo conforta os seus seguidores porque oferece explicações para todas as mazelas da vida e coloca o sofrimento como uma forma de purificação da alma", diz Antonio Flávio Pierucci, sociólogo especialista em religiões da Universidade de São Paulo. O Espiritismo é mais directo mas oferece um produto bastante semelhante ao das restantes religiões.
Todas prometem um mundo melhor além-túmulo, em geral em contacto próximo com o esplendor do Divino. O que o Espiritismo tem de próprio, ainda que não seja um monopólio seu, é o facto de acenar com a certeza de que, no futuro, haverá outras vidas, quantas forem necessárias, para tirar as manchas da alma. "A doutrina católica não ensina aos fiéis como lidar com a dor que os mortos deixam nos vivos nem explica as injustiças da vida. O sucesso do Espiritismo deriva justamente dessa capacidade" , diz o frei Luiz Carlos Susin, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
A crença maciça na reencarnação e na comunicação com os mortos não é um privilégio brasileiro. Uma pesquisa recente mostrou que 51% dos americanos acreditam em espíritos e 27% acreditam na reencarnação. O que nos diferencia são a respeitabilidade alcançada por essas crenças na sociedade brasileira e as dimensões do Espiritismo no País.
Nos Estados Unidos, os negros e os índios cultivavam práticas semelhantes que foram perseguidas até a extinção pelos protestantes – para eles, o conceito de encarnação era coisa do diabo, não de espíritos.
Conclui Ceres Medina, antropóloga da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo : "Quando as ideias de Allan Kardec chegaram ao Brasil, pelas mãos da elite que costumava estudar na França, foram assimiladas facilmente porque o brasileiro já convivia com as práticas espiritualistas".
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| Lily Marinho "O Espiritismo não consola, explica as desgraças da vida" |
Lily Marinho, Viúva de Roberto Irineu Marinho, Ex-Presidente das Organizações Globo. |
De manhã deita a água fora. "Dizem que tudo de ruim fica concentrado ali", diz Lily, que é católica mas desde que o filho Horácio morreu, em 1966, encontrou conforto no Espiritismo. Leu Allan Kardec, foi a Sociedades Espíritas, visitou Chico Xavier e chegou a ter uma visão. "Eu estava em Paris quando vi Horácio, vestido de branco, a segurar uma criança. Entendi que era um recado dele para eu adoptar um menino", conta.
Sete meses depois da morte do filho ela adoptou um garoto, João Baptista. Lily afirma ter encarado a morte de Roberto de forma mais tranquila e que sente a presença dele pela casa. Aos 84 anos, ela não tem o hábito de ir à missa (apesar de ter providenciado celebrações em memória do filho numa igreja de Milão) e garante que não teme a morte e acredita na reencarnação. Diz Lily: "O Espiritismo não é um consolo. É uma explicação para as desgraças da vida".

Ex-jogadora da Selecção Brasileira de Basquete, Maria Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, de 43 anos, é Espírita desde 1992. Conheceu a Doutrina em 1983, quando se submeteu a uma cirurgia espiritual que curou uma lesão grave que tinha no joelho.
Em 1999, passou por uma experiência marcante. Durante uma sessão de massagem, a profissional que a atendia sentiu-se mal e saiu da sala. "Quando voltou tinha nas mãos uma carta psicografada com uma mensagem do meu Pai", diz Paula. "Senti-me culpada quando ele morreu. A carta era sobre essa culpa. Mudou minha vida."
Reportagem de Tiago Cordeiro e Thereza Venturoli.






